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Em meados dos anos oitenta, eu ingressei numa instituição de ensino em “braile” a fim de ser alfabetizado. Nasci na roça, desprovido da visão física, filho de pais humildes, e só fui conhecer esse sistema de escrita e leitura para deficientes visuais quando contava uns trinta anos de idade. A escola ficava na rua Cardoso de Almeida no bairro das perdizes, zona oeste da capital paulista.

Certo dia, depois da aula, dirigi-me de ônibus para a praça da Sé, marco zero da cidade de São Paulo, para me encontrar com a minha esposa, num terminal de ônibus ali próximo. Ela trabalhava no almoxarifado de uma empresa nas cercanias da Sé e havia combinado de se encontrar comigo, logo depois do expediente. Eu havia chegado uns trinta minutos antes da hora marcada, por isso tive que esperá-la por um bom tempo. Enquanto eu aguardava no terminal de ônibus, vivi uma experiência que jamais esquecerei.

A cada trinta segundos, do tempo que permaneci ali, ouvia a voz dolente de um pobre cego clamando por uma esmola. Penso que para comover os corações dos passageiros que esperavam para embarcar, o homem forçava uma voz trêmula e dizia:

– Uma esmola para um cego, pelo amor de Deus!

Sem mudar o ritmo, sem mudar o tom, Como um gotejar contínuo num dia chuvoso, sempre na mesma melodia melancólica, ele prosseguia a suplicar:

-Uma esmola para um cego, pelo amor de Deus!

Após uns quinze minutos ouvindo o mesmo lamento, eu não ficaria em paz com a minha consciência, se não fizesse alguma coisa que pudesse contribuir para mudar a sorte daquele pobre homem. Assim, conduzido pela lamúria do seu apelo, eu me aproximei dele, com o propósito de lhe dar uma contribuição. Mas eu não queria dar apenas dinheiro, junto com aquele trocado eu queria dar-lhe, também, uma palavra de esperança; então, ao colocar minha oferta em sua mão, disse:  

– Meu amado, Deus não criou você para isso, Ele tem uma vida melhor para você!

Quando eu pronunciei essas palavras, aquela voz dolente deu lugar a uma voz rancorosa, e cheio de revolta ele replicou:

– Você fala assim porque você enxerga!

Eu encostei a minha bengala na mão dele e disse com amabilidade:

– Meu querido, eu sou igual a você; a única diferença é que um dia eu abri o meu coração para o evangelho de Cristo, e a luz do amor de Deus iluminou todo o meu ser. Ao ouvir essas palavras, ele ficou ainda mais revoltado e praguejou:

– Já sei, você é crente e pensa que por isso é melhor do que eu!

Eu ainda tentei argumentar com ele, mas percebi que o seu coração estava fechado para Deus; e que qualquer argumento da minha parte, por mais convincente que fosse, seria inútil naquele momento. Então, eu voltei para onde estava antes e me pus a pensar:

– Se o amor de Deus não tivesse alcançado o meu ser, talvez eu seria um concorrente desse pobre homem, aqui nesta mesma praça. Enquanto ponderava nisso, minha esposa chegou e juntos voltamos para casa.

Wilmar Soares