Escolha uma Página

Querida filha,  

Estamos em plena pandemia do coronavírus aqui no Brasil. Mas apesar desta praga, sua mãe e eu, graças a Deus, estamos bem. Enquanto permanecemos em prisão domiciliar, por causa da epidemia, procuramos aproveitar o tempo de maneira divertida e agradável. Já brincamos de “qual é a música”, “show do milhão” e até de esconde-esconde.  

Brincadeiras à parte, vamos falar sério, lembra daquele meu amigo que estuda a bíblia comigo? Pois é, ontem ele me telefonou e leu para mim uma escritura tão linda! Veja o que diz:  

“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança”. 

Ele disse que nesses dias difíceis que estamos vivendo, é preciso ocupar a mente com aquilo que nos traz esperança. Segundo ele, a única coisa capaz de produzir a verdadeira esperança no coração do ser humano, é o amor gracioso de Deus e a sua bondosa misericórdia, que devido à sua fidelidade se renovam a cada manhã.  

Filha, enquanto o meu amigo me dizia isso, eu me lembrei de uma experiência que tive no passado, que tem sido fundamental para manter a chama da esperança acesa em meu coração nos tempos difíceis que a vida nos reserva.  

Certa vez, enquanto estávamos de viagem a serviço, a nossa casa foi visitada por um “amigo do alheio”. Quando voltamos e deparamos com a porta da sala arrombada, bateu um sentimento de grande insegurança em nossos corações.  

Por três noites eu não consegui dormir direito. Qualquer barulhinho que eu ouvia, me levantava e corria, a fim de verificar se as portas e janelas permaneciam fechadas.  

Na terceira noite, antes de ir dormir, eu pedi a Deus que me desse um bom sono, pois no dia seguinte eu teria que levantar cedo para ir trabalhar. Eu não ouvi nenhuma voz, entretanto, fiquei com a sensação de que Ele me dizia:  

– Por que você está acordado? Nunca leu na minha palavra?  

“Ele não deixará que você tropece, seu Guardião nunca dorme. Jamais! O Guardião de Israel nem sequer cochila”.  

Depois desta experiência, fui para minha cama e dormi calmo e tranquilo como uma criança. A palavra que recebi dEle naquela noite, me deu esperança e ânimo para prosseguir na vida.  

Filha, quando isso aconteceu você ainda era jovenzinha, e talvez não se lembre dos detalhes. Nesse tempo, nós frequentávamos uma igreja que ficava longe de onde morávamos. Por causa disso, receoso de que o gatuno pudesse voltar em nossa ausência, nós criamos um cenário bem elaborado, a fim de dar a ideia de que havia gente em casa o tempo todo.  

Foi assim que surgiu a nossa peça teatral: pegamos duas enceradeiras, uma que ainda usávamos e outra antiga que não funcionava mais. Vestimos uma jaqueta de capuz em cada uma delas, e encaixamos uma bola de borracha dentro de cada capuz, simulando uma cabeça humana.  

Depois, colocamos as duas enceradeiras como se fossem duas pessoas, sentadas à mesa, de costas para a janela de vidro caneladoPusemos, também, uma garrafa de café, um prato de biscoitos e vários livros abertos sobre a mesa, para dar a entender que os nossos personagens estavam estudando.  

Além dessas coisas, instalamos um micro system com um CD de música, na função repetir faixa, para tocar o tempo todo, uma canção que dizia assim: “Ei, você aí, com certeza já ouviu falar de mim”.  

Usamos esse artifício por muito tempo; na verdade, o nosso teatro permaneceu até que passou aquela sensação de insegurança e a confiança voltou aos nossos corações.  

Econtei essa experiência ao meu amigo, e ele me disse que em tempos de crise, é necessário aprender a reinventar-se; pois isso, além de capacitar vencer o stress, influencia a quem estiver à nossa volta a ter esperança e bom ânimo.  

Bem, Filha, por hoje é só, um abraço deste Pai que se preocupa muito com você. Por favor, cuide-se e não se exponha ao risco, ok!? 

Obs: Como sua mãe e eu somos caseiros, não temos tido nenhuma dificuldade em ficar em casa. Então, fique tranquila a nosso respeito, porque como dizem os jovens, estamos de boa.  

Wilmar Soares – 24/03/2020