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Um mensageiro do céu.

Apesar do alto nível de desemprego no país, a cidade de São Paulo estava muito bonita. Por
toda parte havia casas enfeitadas, árvores iluminadas, num espetáculo de luz e cor, belo de se
ver.
Os lojistas colocaram todo tipo de mercadoria em promoção, na expectativa de atrair clientes
e assim, com boas vendas, fechar o ano no azul.
Os restaurantes estavam preparados com um cardápio típico da noite, para atender à
demanda. As casas exalavam o agradável aroma de seus banquetes.
As pessoas caminhavam pelas ruas, de rosto alegre, carregando sacolas e pacotes de presentes
por meio dos quais externariam afeto e carinho aos seus entes queridos.
Apesar do clima de festa reinante na cidade, um pobre homem, dentre tantos que sofriam com
o desemprego, resultante da corrupção na política brasileira, andava desnorteado pelas ruas
do Tatuapé, região leste da capital. Em casa, o aguardava uma esposa resignada, e duas
crianças gêmeas, ansiosas por um presente de natal. Após oferecer os seus préstimos por todo
aquele dia, a troco de algum recurso financeiro, e só ter recebido de volta o não das pessoas,
desalentado, o homem sentou-se num banco da praça Sílvio Romero e se pôs a lamentar sua
triste sorte. Enquanto permanecia ali em profunda introspecção, não percebeu alguém chegar
e sentar-se no mesmo banco. O pobre homem só se deu conta de que havia uma pessoa perto
dele, quando ouviu a seguinte saudação:
– Olá, meu amigo! Percebo que o seu coração está angustiado. Posso fazer alguma coisa por
você?
Então, o pobre homem ergueu os olhos e viu um senhor bem apresentável ao seu lado.
Julgando que fosse um desses empresários bem-sucedidos, que tratam os seus funcionários
como se fossem coisas descartáveis, sua primeira reação foi querer soltar os cachorros em
cima dele. Porém, pensou duas vezes e disse:
– Senhor, com certeza sua família, seus parentes e seus amigos o aguardam para a ceia do
natal. Não vale a pena encher seu coração com uma história melancólica como a minha, num
momento tão importante como este. A isso, o desconhecido respondeu:
– Não se preocupe com a hora,pode falar… eu estou disponível e quero ouvi-lo. Diga-me, o que
o aflige? – Então, o pobre homem enxugou os olhos molhados de lágrimas na manga da
camisa, e pôs-se a falar:
– Eu sou um dos milhões de desempregados desta nação, que durante o ano inteiro correu
atrás de uma oportunidade de trabalho, mas que nada conseguiu. No natal do ano passado, eu
já estava desempregado, porém, devido às reservas que ainda possuía, pude dar um natal
digno para a minha família. Mas agora, bem… eu… eu…
Nesse instante sua voz embargou e depois de uma pausa, engoliu seco e continuou:
– Bem, agora eu sinceramente não sei o que fazer! Ao sair de casa nesta manhã, pedi à minha
esposa que preparasse a mesa de jantar com uma bela toalha, que ela havia ganhado como
presente de aniversário de uma amiga, quando a vida ainda nos sorria. Pedi que ela estivesse
pronta com as crianças quando eu chegasse e prometi que voltaria com os preparativos para a
ceia do natal. No entanto, todo o dia, eu perambulei pelas ruas da cidade, oferecendo os meus
préstimos, na esperança de conseguir algum dinheiro que me permitisse dar um natal humilde,
mas decente, à minha família. Contudo, ninguém, absolutamente ninguém, interessou-se pelos
meus serviços. Agora eu estou aqui desanimado, envergonhado e sem coragem de voltar para
casa; pois como eu poderia chegar lá sem as coisas que prometi? Como explicar às minhas
gêmeas que não consegui dinheiro para comprar as bonecas que elas esperam ganhar de
presente.?Meu senhor, elas ainda são muito pequenas para entender os reveses da vida!
Nesse momento, a voz do homem embargou de novo, mas dessa vez ele se desmanchou em
lágrimas.
O cidadão desconhecido que o ouvia atentamente, apesar de se mostrar forte e seguro, ficou
emocionado; e a fim de evitar as lágrimas que estavam prestes a romper, tocou o ombro do
homem e indagou dele se morava ali no Tatuapé.
Recobrando as emoções, o homem respondeu:
– Não, eu moro na Vila Maria alta, logo depois da Marginal Tietê. E sem suspeitar de nada, ele
falou o seu endereço para o desconhecido.
Depois de trocarem mais algumas palavras, o senhor levantou-se, caminhou até o outro lado
da praça, fez uma ligação do celular, então , voltou e disse:
– Meu amigo, tenha bom ânimo, o novo ano há de ser melhor; agora venha comigo, eu vou lhe
deixar em casa.
A princípio, o pobre homem relutou em aceitar a carona do desconhecido, mas por fim
concordou e foi com ele. No caminho, eles conversaram acerca de vários assuntos, inclusive
sobre o verdadeiro significado do natal. Ao chegar numa rua tranquila, travessa da avenida
Albert Byneton, o homem disse:
– É aqui, senhor; eu moro nessa casa verde antes da esquina. Então, o desconhecido parou o
carro, e o homem desceu do veículo agradecendo a carona.
Porém, o senhor lhe perguntou:
– Você não vai me convidar para tomar, ainda que seja um copo de água fria, em sua
residência?
Meio sem jeito, com um sorriso tímido, o pobre homem argumentou:
– Senhor, apesar do estado de escassez em que me encontro no momento, um copo d’água,
ainda tenho para oferecer! – Depois, disse: – Por favor, entre!
Sem cerimônias, o desconhecido desceu do automóvel comentando:
– Vamos lá, eu ainda disponho de alguns minutos.
Assim que entraram pelo portão social, o homem viu que a casa estava toda escura e achou
estranho; mas depois, pensou “ Por certo, elas cansaram de esperar por mim e frustradas
foram dormir”
Porém, assim que girou a chave e abriu a porta, as luzes acenderam e um grito de feliz natal,
acompanhado de assobios e palmas, encheu a casa. Então, o homem viu uma mesa natalina,
sortida com todo tipo de comidas e guloseimas, própria para a ocasião. Em seguida, ele olhou
em volta e viu várias pessoas bonitas, bem vestidas, as quais correram ao seu encontro, a fim
de se apresentar e desejar feliz natal.
Diante de tamanha surpresa, o homem sentiu-se curado de toda amargura provocada pelos
nãos que havia recebido das pessoas ao longo daquele dia. Porém, o êxtase veio quando as
duas gêmeas vieram correndo do quarto, com duas bonecas nos braços, dizendo:
– Papai, veja como são lindas as bonecas que o senhor pediu para a tia Rebeca e a tia Raquel
nos trazerem de presente! Obrigada papai!
Isso fez o homem, mais uma vez se derreter em lágrimas; entretanto, desta vez, lágrimas de
alegria. Todavia, as surpresas da noite ainda não haviam acabado.
Nesse instante, o senhor desconhecido tomou a palavra e disse ao homem:
– Todas as pessoas que você vê aqui, além de sua esposa e suas gêmeas, fazem parte da minha
família: são meus filhos e filhas, genros e noras, netos e netas. Não apenas no natal, mas todo
mês, nós pedimos a Deus que nos indique uma pessoa para com a qual possamos mostrar a
bondade de Deus. E neste mês, Deus escolheu você. Ainda impactado com tudo aquilo, o
homem exclamou:
– O senhor é mesmo humano ou é a encarnação de alguma divindade?
A isso, o desconhecido respondeu sorrindo:
– Eu sou tão humano quanto você; apenas procuro fazer o que o livro sagrado nos manda fazer,
ou seja, “Ser um imitador de Deus, como filho amado”.
Então, o homem indagou do bondoso desconhecido:
– Senhor, o que eu poderia fazer para retribuir tudo isso que vocês fizeram por nós
neste dia?
– É simples! – respondeu ele – veja quanta comida há em sua mesa hoje. Por mais que
comamos nesta noite, não poderíamos consumir tudo isso. Com certeza você conhece
muitas famílias carentes nessa região, peça a Deus e Ele indicará uma delas para
almoçar com vocês amanhã.
Havendo dito isso, o desconhecido tirou do bolso do blazer, um envelope e entregou ao
homem, dizendo:
– Aqui está uma contribuição financeira para você passar com sua família o fim de ano
despreocupado. Deixo também com você, um cartão com o endereço do nosso escritório; vá lá
na segunda-feira da segunda semana de janeiro e procure pelo José Carlos. Ele colocará você,
em sua especialidade, numa de nossas empresas. Agora, vamos dar graças por esta mesa linda
e apetitosa que o bom Deus nos concedeu.